quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O mito da Unidade Linguística no Brasil

Desde a independência do Brasil os políticos se ocuparam em formatar no imaginário popular um certo mito de fundação do país, usando para isso recursos da simbologia e da ideologia. Dom Pedro II, por exemplo, criou um Instituto Arqueológico e promoveu expedições para mostrar a antiguidade da civilização em terras brasileiras, fomentando assim um desapego do novo país recém-independente em relação à matriz e a dependência colonial histórica. Marilena Chaui cita em “Brasil: Mito de origem e Sociedade Autoritária” algumas outras idéias trabalhadas, como a glorificação de uma natureza idílica e gentil e das riquezas que ela propicia, o que foi aproveitado na confecção do símbolo máximo da bandeira do brasil. Outro mito de fundação estaria do caráter do povo brasileiro, aberto a todos os povos e culturas do mundo, envolto numa espécie de “Bonomia Superior”, como diz Sérgio Buarque de Hollanda ao explicar o seu conceito de “homem cordial” brasileiro. Darcy Ribeiro também considera estes mitos ao dizer que o Brasil está assentado na mais bela província da Terra, e por isso foi muitas vezes considerado, literalmente, o paraíso bíblico na terra, o que Sérgio Buarque explora no seu clássico “Visões do Paraíso”. Ao explicar a origem do que chamou de “ninguénzada”, ou seja a população brasileira, Darcy aborda a grande miscigenação que possibilitou aos colonizadores fincar nova população em território descomunal: a melancolia portuguesa, a força e ginga dos africanos e a sede de liberdade inflexível das nações indígenas. Este mito é explorado na Bandeira do Estado de São Paulo, que é tricolor, com as três cores representando os três “sangues” principais da formação dos nosso povo: vermelho, preto e branco.
O mito da Unidade Linguística no Brasil pode ter origem no próprio processo de colonização, já que o território era disputado pelos portugueses com outras potências européias: França, Holanda e Espanha, principalmente. Após a Independência o Brasil conseguiu manter coeso o território político, ao contrário da fragmentação do Império na América Espanhola, que se dividiu em vários países. Isso foi mantido, por vezes, com a força das armas, como nos mostra a biografia de Duque de Caxias durante o Império Brasileiro: Balaiada no Maranhão, Guerra dos Farrapos etc.
É evidente que no Brasil não se fala apenas uma única língua (o português). No imenso território do “país-continente” podemos atestar isso através de inúmeros fatos, como a presença maciça de imigrantes em tempos relativamente recentes. Nesse sentido, clássico é o exemplo de pequenas comunidades semi-isoladas no interior de SC e RS, que orgulham-se de conservar certas tradições de seus países de origem, como a Alemanha e a Itália. Também, especialmente mais ao Norte, encontramos comunidades e nações indígenas que têm o direito garantindo de conservar como podem seu idioma e suas falas nativas.
Ainda hoje causa espanto para alguns a decisão do Governo Vargas, durante a II Guerra Mundial, de proibir que se falasse e ensinasse o alemão nas escolas de algumas destas cidades no interior de SC e RS. Isto nos leva a crer que a unidade linguística é promulgada politicamente, a partir de um centro de irradiação de poder. O nhengatu e a língua geral paulista, mistura de língua guarani com gramática portuguesa (jesuítica) era a mais falada no Brasil até o Marquês de Pombal impôr o uso do português somente no século XVIII. Na prática a unidade linguística via de regra sempre encontra vários contra-exemplos e exceções. Mesmo o português brasileiro não é único, embora haja liames recorrentes, como na ação da mídia ou da Rede Globo, que cumprem um papel planificador ao propalar em seu sinal um número reduzido de variantes linguísticas, adotando um padrão e ignorando ou estereotipando as diferenças e variações regionais. Estas são notáveis: no litoral fala-se diferente do interior e cada estado mantém um “sotaque” próprio. Adotar uma das variantes como padrão único é considerado pelos sociolinguístas como um legado autoritário e centralizador, ou, como diz Marcos Bagno “A língua padrão é a língua do patrão”.

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